| "Dilúvio Improvisação" - Kandinsky, 1913 |
Pierre Lévy, filósofo e sociólogo, um dos maiores estudiosos
sobre o mundo da internet, começa, o seu livro “Cibercultura”, por nos dizer porque
costumam apelidá-lo de otimista e nós,
ao longo do livro, vamos percebendo porque é que costumam, também, dizer que é
um visionário.
Não podemos esquecer que muitas das afirmações, feitas no livro, resultam de reflexões feitas há duas, três décadas atrás. Estamos, assim, perante “estudos” e “previsões” (para nós, hoje, tão evidentes), que refletem a sua capacidade para analisar a internet, antecipando a sua evolução, virando-se para o futuro e dando-nos indicações sobre qual será o seu “impacto” (falaremos mais à frente porque Lévy não gosta de usar esta palavra) em toda a sociedade, prevendo a criação de novas realidades.
Lévy (1999) realiza uma reflexão sobre o dilúvio bíblico como metáfora para este dilúvio informacional, pedindo-nos que, na leitura do livro, em vez de nos situarmos no caos, na complexidade desta nova organização, deixemos de lado, por um momento, as questões económicas, comerciais, jurídicas e, até, as criticas para nos centrarmos “nas novas formas artísticas, nas transformações na relação com o saber, nas questões relativas à formação e educação, à cidade e democracia, à manutenção das diversidade das línguas e das culturas, aos problemas da exclusão e da desigualdade”.
Explicita no livro dois conceitos fundamentais para compreendermos a sua obra, o conceito de ciberespaço e o conceito de cibercultura. Quanto ao primeiro, a que “chama "rede", o novo meio de comunicação que surge da interconexão mundial dos computadores, o termo especifica não apenas a infraestrutura material da comunicação digital mas também o universo oceânico de informações que ela abriga, assim como os seres humanos” (Lévy,1999).
Quanto ao termo Cibercultura “especifica o conjunto de técnicas (materiais e intelectuais) de práticas, atitudes, de modos de pensamento e de valores que se desenvolvem juntamente com o crescimento do ciberespaço” (Lévy, 1999).
Cibercultura para o autor reflete, ainda, a “universalidade sem totalidade”, vê-a como algo diferente, universal devido a essa interconexão. Universal porque promove a interconexão generalizada, mas, na sua opinião, possuindo mecanismos que a impedem de se tornar “totalizável”.
Muitas das reflexões são, hoje, realidade, ou estão em desenvolvimento, o correio eletrónico, o ensino a distância, as novas formas de organização do trabalho, as comunidades virtuais e aprendizagem cooperativa.
Todas refletem aquilo a que Lévy denominou por Inteligência Coletiva. Sempre que um de nós compartilha alguma coisa, geram-se novas conexões. Quando alguém modifica um conteúdo, forma-se uma nova “memória virtual compartilhada”.
“Desenha e redesenha a figura de um labirinto móvel, em expansão, sem plano possível, universal, um labirinto com o qual o próprio Dédalo não teria sonhado. Essa Universalidade desprovida de significado central, esse sistema de desordem, essa transparência labiríntica, chamo-a de "universal sem totalidade". constitui a essência paradoxal da cibercultura” (Lévy, 1999).
Educação e
Cibercultura
Esta afirmação de Lévy encontra-se muito bem alinhada com o que são os novos paradigmas da gestão de recursos humanos. Os indivíduos deixaram de ser avaliados só pelas suas qualificações de base, pelos seus conhecimentos e aptidões e são, ou devem ser, hoje, reconhecidos pelos seus perfis de competências, adquiridos em percursos formais de educação e formação mas, também, por todo o conjunto de competências, comportamentos observáveis, adquiridos em toda a sua experiência de vida, muitas vezes, até, transferíveis da sua experiência pessoal para a sua esfera profissional, naquilo a que se chama gestão por competências.
"A Pedra":
o bruto a usou como projétil,
o empreendedor, usando-a construiu,
o campônio, cansado da lida,
dela fez assento.
Para os meninos foi brinquedo,
Drummond a poetizou,
Davi matou Golias...
Por fim;
o artista concebeu a mais bela escultura.
Em todos os casos,
a diferença não era a pedra.
Mas o homem.
Tal como no poema, para Lévy, não se trata de avaliar os "impactos" da tecnologia e da internet, mas situarmo-nos na sua irreversibilidade, explorando as suas potencialidade e decidir o que melhor fazer com isso.
Devemos, talvez, apostar no desenvolvimento de novas competências, como o pensamento critico, a resolução de
problemas complexos, a comunicação, a colaboração e criatividade para melhor lidarmos com este dilúvio informacional.
"New vision for education: fostering social and emotional learning throught technology”
Wordl Economic Forum, 2016
Lévy, apesar do seu estilo entusiasta e otimista não deixa de nos convidar no final do livro a respondermos a algumas questões...
Referências Bibliográficas
Lévy, P. (1999) Cibercultura. Editora 34
#Cibercultura

"Em todos os casos, a diferença não era a pedra." Ótima analogia Ana!
ResponderExcluirMas o homem.
Obrigada pela visita! A tónica positiva de Lévy pareceu-me sintonizada com a forma como às vezes nos posicionamos contra as coisas, sem preocupação em encontrar o que de positivo podemos fazer com as contradições e contrariedades. :)
ExcluirGostei do ponto que você enfatiza que o livro foi escrito décadas atrás, ou seja, hoje pode parecer "óbvio" e soar até simples o que foi escrito, mas na época era lago impensável...
ResponderExcluir"Estamos, assim, perante “estudos” e “previsões” (para nós, hoje, tão evidentes), que refletem a sua capacidade para analisar a internet"
Boa semana!
Obrigada pela visita! Mesmo lendo o livro, hoje, parece muito atual, há muitas reflexões que não nos "lembramos" de fazer!
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